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Qual a hora certa de liberar tecnologia e internet para os filhos?

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Reportagem: Jamile Amine

Cecilia tem dois anos e os dedinhos já são habilidosos para manipular o tablet e o smartphone da mãe. A pequena gosta de ver e fazer fotos, além de visualizar infinitamente vídeos de desenhos infantis. Com as crianças começando cada vez mais cedo a utilizar tecnologia, a pergunta é: existe idade mínima para o manuseio de aparelhos eletrônicos e acesso à internet?

De acordo com a psicóloga e psicanalista Juliana Cunha, coordenadora da Safernet Brasil, organização sem fins lucrativos que desenvolve projetos voltados à segurança, combate à violência e crimes virtuais, “a maturidade não tem a ver só com faixa etária, ela é parte de um processo e deve ser construída com a orientação dos pais”.

Juliana explica que a internet é uma extensão da vida e não um mundo paralelo. É também um espaço público, da brincadeira, onde as crianças se encontram e batem papo, por isso valem aquelas mesmas regras básicas ensinadas desde a época dos nossos avós.

“Você não deixa seu filho pequeno brincar sozinho na praça, você acompanha ele nos primeiros passos e dá a mão para que ele atravesse a rua. Na rede não deve ser diferente, os pais devem orientar essa experiência e avaliar se ele tem a esperteza para atravessar sozinho com segurança”, exemplifica.

O maior medo dos pais é o contato com adultos mal intencionados, mas para a psicóloga, a proibição justificada pelo receio de ser vítima de crime ou violação não é o melhor caminho. “Privar não protege. O que a gente vê nas pesquisas é que quanto mais as crianças usam a tecnologia, mais elas aprendem e adquirem maturidade para usar. O que orientamos é o acompanhamento, que se estabeleça horários e limites, para evitar o uso excessivo e o comprometimento de outras atividades”.

Um dado curioso do Helpline – canal gratuito da Safernet, que oferece orientação e informações para crianças, adolescentes e pais, sobre uso da internet e violência online – é que a principal queixa apresentada não é a de pedofilia, tão abordada na mídia, mas sim a violência entre pares. De acordo com a psicanalista, 30% dos pedidos de ajuda são relacionados a situações de ofensas, intimidações e ameaças de outras crianças ou adolescentes, o chamado cyberbullying.

“O cyberbullying incomoda especialmente pré adolescentes e adolescentes. A opinião do outro tem muito peso, porque estão no momento de construir a identidade. Pesa para a autoestima e senso de pertencimento no mundo”, explica Juliana Cunha, apontando o apoio da família e o envolvimento da escola como indispensáveis para otimizar o amadurecimento na vida online.

Telma Brito, doutora em educação e escritora do livro Cyberbullying – Ódio, violência virtual e profissão docente, também acredita que a escola tem papel importante neste processo. “Sou uma defensora da integração das tecnologias na educação, vista como algo de potencializador. É interessante usá-la para transformar as formas de ensinar e aprender. Não se pode dizer que a internet não educa. Ela educa, desenvolve a cognição da criança, mas esse convívio na vida digital deve ser supervisionado”, alerta.

Tudo é questão de limite. Para a educadora, é preciso regular o uso dos eletrônicos em sala de aula, de forma que evite dispersão naquele espaço, que é local de reflexões, análise e estudo. Ela alerta ainda para que aparelhos caros nas mãos das crianças não sejam meros objetos de consumo e projeções ambiciosas dos pais.

“O consumo tem que ser ponderado e refletido. Deve-se perguntar, para quê? O que vou fazer com isso? A tecnologia deve ser mais que um objeto para que os pais possam demonstrar o poder que têm. Principalmente quando são posses de crianças que muitas vezes nem conhecem todo o potencial daquele aparelho caro”, alerta Telma Brito.

Fabiana Sales, mãe da pequena Cecilia, segue as instruções das especialistas. A filha não tem celular, computador ou tablet, além disso, o uso dos eletrônicos – que têm senha de acesso – está vinculado à sua presença, para que a navegação seja sempre segura.

A lição que fica é que a tecnologia não é vilã e tampouco mocinha, tudo depende do uso que se faz dela. Novas formas de comunicação e de interagir são a realidade para as gerações que já nasceram online. Cabe aos pais se adaptar e navegar sem preconceitos, acompanhando seus filhos neste imenso mar de informações e possibilidades.

Informações úteis:

>>Site do Helpline da Safernet, canal de ajuda para orientar crianças e adolescentes e/ou seus próximos que vivenciaram situações de violência on-line: www.canaldeajuda.org.br

>>Blog de Telma Brito, doutora em educação e escritora do livro Cyberbullying: ódio, violência virtual e profissão docente, contém informações sobre o tema, além de links para diversos sites correlatos: telmabr.blogspot.com.br

Navegação em números:

Veja alguns dados da pesquisa Tic Kids Online Brasil, de 2012, feita pela Safernet

*45% das crianças de 11-12 anos usam mensagem instantânea com amigos diariamente

*18% das crianças pesquisadas relataram com com frequência tentam ficar menos tempo on line, mas não conseguem

*22% das crianças já passaram por situações on line que as chateou nos últimos 12 meses

*47% das crianças e adolescentes entre 9-16 anos usam a internet todos os dias ou quase todos os dias

*71% dos de 11-12 tem perfil em redes sociais

*50% dos pais não verificam que foi adicionado ao perfil de rede social dos filhos